Performance > partituras projetadas em vídeo maepado, bateria, piano, 02 caixas de som (aprox 1h por instrumento)




               Solo é uma obra que trata do processo de aprendizagem na música, mais especificamente na tradição do jazz.
A ideia é dar a ver ao público o que está por trás de todos os momentos de improvisação livre no palco: a saber, uma rotina de prática solitária, repetitiva, não-criativa e muitas vezes frustrante dos músicos. Prática esta que passa, com frequência, pelo estudo meticuloso de solos de jazzistas do passado.

               Um por vez, músicos profissionais de jazz são convidados a reproduzir temas cujos solos tenham se tornado icónicos em seus respectivos instrumentos. Sem conhecimento prévio das faixas, eles contam se baseiam unicamente na leitura da partitura, projetada em grande formato e sincronizada com a gravação original, que é transmitida através de caixas de som. O exercício é repetido tantas vezes quantas forem necessárias para que as notas tocadas ao vivo coincidam com as ouvidas pelo público na gravação. Quando o presente e o passado começam a fundir-se, e a gravação e a execução ao vivo se sobrepõem, a peça termina.

               O seu título, Solo, evoca tanto a solidão do músico fora do palco como o caráter contra-intuitivo do ato que é reconstituir fielmente no presente o que antes foi pura improvisação.






Video teaser > performance no Ateliê 397 / Galpão Cru, São Paulo, BR




+ Textos Críticos > Solo: uma partitura para descompassos
por Ana Paula Lopes and Cadu Gonçalves




  créditos
músicos
Rafael Heiss & Chicão
assistência Natália Marchiori
fotografia
Douglas Garcia
video
Haroldo Saboia
agradecimentos Ateliê 397 & Galpão Cru










Instalação > 240 folhas A4 impressas a preto e branco, 240 x 630 cm





                A obra apresenta uma compilação de notas de repúdio contra o presidente Jair Messias Bolsonaro, produzidas entre 2018 e 2021, tanto pela sociedade civil como por políticos de outras orientações ideológicas. Resultado da crise da democracia representativa instaurada no Brasil, estas notas se tornaram onipresentes, e marcam a uma só vez o descontentamento com o governo e a impotência coletiva face a ações concretas. 

                Sobreposta às folhas de papel está a reconstituição caligráfica em grande formato de um cartaz de protesto que o filósofo Baruch de Spinoza teria realizado em 1672, contendo apenas: "ultimi barbarorum". Quando os dignitários da República da Holanda foram depostos, resultando na sua prisão, assassinato e linchamento público (com relatos de canibalismo), o filósofo racionalista decidiu expressar a sua indignação. Seu plano era afixá-lo próximo ao local do crime, possivelmente frente a uma igreja, de modo a sublinhar a responsabilidade de monarquistas e do clero no golpe de estado. Para o filósofo, enquanto a massa seria certamente “bárbara”, os mandantes seriam “os mais bárbaros dos bárbaros”.  

                Contudo, sua ação foi frustrada pelo senhorio da casa onde vivia, que o trancou à chave em um quarto, temendo que fosse também brutalmente assassinado.





+ Textos críticos > Os mais bárbaros dos bárbaros
por José Bento Ferreira




  créditos
registro
Douglas Garcia
reconstituição caligráfica Gui Menga  
assistente de pesquisa e instalação
Natália Marchiori










Instalação > aproximadamente 3.200 itens pessoais do artista, 32 estantes metálicas, 2 gaveteiros metálicos, 15 tubos de luz, itens de papelaria em quantidades variadas, 2 media players, 1 mural de 10 metros em vinil adesivo e 34 marcações em vinil adesivo (dimensões totais variáveis)
+ Formulário do IBGE > 11 folhas A4 coloridas preenchidas à mão por Leonardo Araujo Beserra





                As coisas é uma tentativa de reconstituir — de forma quase detetivesca — a cronologia de uma vida (1985 – 2018) a partir de seus resíduos materiais acumulados ao longo dos anos. Ao listar e tornar públicos todos os meus objetos fora de uso, a obra vai na contramão das autobiografias convencionais: não se trata de partir das lembranças do seu autor mas, pelo contrário, de servir-se da materialidade dos objetos para forçar a memória (e o esquecimento) em direções radicalmente imprevistas.

                Exibidos sem qualquer censura, os mais de 3.000 itens aqui repertoriados, organizados cronológica e alfabeticamente, funcionam menos como um museu pessoal do artista e mais como arquivo comum de uma geração compartilhada. A escolha do próprio título, uma referência ao livro do escritor francês Georges Perec As coisas: uma história dos anos sessenta, de 1965, testemunha da impessoalidade da empreitada. Afinal, é dele o projeto (não-realizado) do inventário exaustivo de si próprio:

"Este pânico de perder meus rastros seguiu-se de uma fúria de conservar e classificar. Eu guardava tudo: as cartas com seus envelopes, ingressos de filmes, passagens aéreas, faturas, talões de cheques, prospectos, recibos, catálogos, convocatórias, jornais diários, canetas-marcadoras secas, isqueiros vazios e até mesmo boletos de contas de gás e eletricidade de um apartamento no qual já não vivia há mais de seis anos e, às vezes, passava um dia inteiro a triar e a triar, imaginando uma classificação que preencheria cada ano, cada mês, cada dia da minha vida." ("Os lugares de um ardil", In Pensar/Classificar, 1985).

                Assumindo a forma expositiva de uma grande instalação imersiva, propondo vários tipos de classificação simultâneos, As coisas obra remete ainda à forma e à função simbólica de um labirinto. Desde as mais antigas mitologias, estes funcionam como poderosas metáforas do sujeito: perder-se e encontrar-se ali é perder e encontrar a si mesmo.







Autorretrato > 02 tiras de fotografias instantâneas emolduradas (28 x 28 cm), 2010








Processo > registro da organização do material na casa do artista em São Paulo, entre janeiro e setembro de 2018




+ Textos críticos > Censo demográfico 2018: As coisas por Leonardo Araujo Beserra




  créditos
registros fotográficos João Paulo Racy
assistente de pesquisa e catalogação
Natália Marchiori










Colagem de capturas de tela exibindo os resultados de uma extensa pesquisa virtual feita sobre a ilha fantasma chamada "Brazil". A obra se vale das funções de diversas ferramentas digitais para organizar as diversas narrativas — históricas, literárias, mitológicas, cartográficas — que se entrecruzam pelas telas. O acabamento das impressões em metacrilato evoca ainda o aspecto vítreo das telas de computadores, smartphones e tablets, que mediam inevitavelmente nossa relação com a realidade.

Políptico fotográfico > 6 impressões em pigmento sobre papel de algodão e metacrilato
(37,5 x 60 x 1 cm cada; 75 x 180 x 1 cm total)





                  Hy Brazil é uma investigação sobre o erro, o engano e a ilusão. Ela toma por objeto uma ilha fantasma chamada "Brazil" (ou Hy Bressail, O’Brazil, Bracil, Bracir etc.) muito antes da descoberta das Américas. Geralmente situada próxima à costa da Irlanda, ela esteve presente em praticamente todos os mapas náuticos de 1325 a 1870, até ser finalmente descartada pela cartografia moderna. Nesse meio tempo, a Ilha do Brasil ocupou um lugar privilegiado no imaginário da era das navegações – na literatura, na escolástica, na mitologia e mesmo na ufologia – como um lugar maravilhoso, porém inalcançável.

                  Ao traçar uma verdadeira cartografia do engano, Hy Brazil aponta para além da simples homonímia com o país sul-americano. Pois, quando visto de longe, de fora ou de cima, o Brasil não parece ser mais do que essa ilha deserta à espera de um colonizador, esse significante virgem no aguardo de um discurso redentor. Sua existência concreta – com sua história, sua geografia e sua cultura próprias – nada muda em relação a seu estatuto essencialmente fantasmagórico. Afinal, hoje como ontem, realidade nenhuma jamais impediu que florescessem e proliferassem por aqui os mais selvagens fantasmas do desejo e do inconsciente.

                  Metáfora vazia, como diz Malachy Tallack, "Hy Brazil é um fantasma, uma ficção, um mito e um erro. É tudo isso e, no final, não é nada".







Conjunto de 37 transparências reproduzindo mapas dos séculos 14 a 19. Estes foram ajustados a uma mesma escala, para que fosse possível sobrepor, não apenas as diferentes etapas do desenvolvimento da geografia, mas também as convenções cartográficas de cada época (desenhos, ilustrações, coordenadas e escalas). Uma série de gravações a laser em formato de X permite identificar as diferentes localizações da ilha "movediça".

Transparências > 37 Impressões em placas PETG 0,5mm gravadas a laser (70 x 100 cada)







Reprodução de uma nota do cartógrafo Robert Dudley em sua "Carta Particolare dell Mare di Ierlandia e Parte di Inghilterra e della Iscotia" de 1646-47. Junto à Ilha do Brasil, lê-se em italiano arcaico: "I. O Brasil è Isola disabtitata. È incerta se ci è tal’ Isola ò no". O que poderia ser traduzido em português por: "I. Brasil é uma ilha desabitada. É incerto se existe tal ilha ou não". Com sua face coberta de preto, o neon realça o aspecto manuscrito da anotação feita sobre papel.
 
Letreiro luminoso > neon branco tingido de preto (230 x 57 cm)








Conjunto de recortes reproduzindo as mais diversas formas atribuídas à "Ilha do Brasil" pelos cartógrafos dos séculos 14 ao 19. Para além de seu caráter "circular", era constante a crença de que a ilha conteria em seu centro uma lagoa, ou seria ainda atravessada por um rio. A madeira utilizada, Muirapiranga, foi muitas vezes confundida com a árvore de seiva avermelhada que deu nome ao nosso país (e talvez à própria ilha). Por essa razão, ela atende oficialmente hoje por "Falso Pau-Brasil".

Relevos > 48 peças em madeira maciça (aproximadamente 25 x 25 x 2 cm cada)








Reconstituição de um mapa de 1474 do cartógrafo Paolo Toscanelli, enviado a Cristóvão Colombo a fim de indicar a possibilidade de se chegar às Índias navegando em direção a Oeste. Toscanelli estava certo, mas também estava errado, pois ignorava a existência do Novo Mundo. O tapete reproduz em preto e branco o inédito sistema de coordenadas assim como a geografia do século 15, enquanto um jogo de alturas diferentes dos fios convida o público a "esbarrar" acidentalmente na América com seus pés.

Tapete > nylon antron (poliamida) com fios de 14 e 17mm, base em polipropileno e latéx (190 x 260 cm)










Em colaboração com Alexandre Gwaz
Performance musical > bateria acústica, computadores, equipamento de gravação, luzes de LED





                A performance Toque Aquela Música consistiu na gravação ao vivo de um disco de cinco faixas. Intitulado "Toque até morrer", ele é a versão fantasma de outro disco, aquele que eu deveria ter gravado com minha banda de adolescência dez anos antes.

                Os subterrâneos surgiu em meados de 2004 no Rio de Janeiro do encontro de cinco amigos com alguma pretensão artística e terminou algum tempo depois como tantos outros conjuntos análogos: por motivo de brigas e desentendimentos. Mas, neste caso específico, deixando ainda um contrato por assinar com uma gravadora e uma fita demo com os arranjos prontos para cinco canções inéditas.

                O disco segue à risca as partituras originais, mas contém apenas a parte que me cabia à época: a bateria. Ele foi gravado ao vivo no Espaço BREU, em São Paulo, no dia 2 de dezembro de 2017, com o auxílio do artista sonoro Alexandre Gwaz. A bem da verdade, o trabalho já havia começado muito antes: pois fora necessário todo um longo processo de reaprendizado do instrumento, com o qual não tivera mais contato desde então.

                Forçando o corpo de volta ao vigor do passado, tal dispositivo performático buscou trazer à tona os contornos quase míticos que a ideia da “banda” tem no imaginário de tantos outros jovens que, assim como eu, escolheram a música como primeira plataforma de trocas. Mas evidenciou ainda, por meio de um flagrante jogo de ausências, o efeito por vezes devastador da passagem do tempo, sufocando essas mesmas aspirações, desejos e iniciativas sob o peso dos imperativos da vida adulta.







Cartazes > 4 impressões em papel fotográfico (70 x 47,5 cada)






Disco > registro da performance sonora, disponível em mp3 e vinil de 10 polegadas
(edição de 100), contendo pôster assinado






Vídeo > teaser de lançamento do disco Toque até morrer




  créditos
design disco Marina Oruê / membrana.info
iluminação
Helô Duran
registros fotográficos
Nino Andrés
filmagem
Pedro França
edição filme
Haroldo Saboia